15 de abr. de 2015

higher

ela beija minha boca com a língua que
tem gosto de suor e álcool e também
uma leve pitada de nada, eu
arranco minha roupa e
seguro-a pelos cabelos e
coloco-a sob meu paladar assim
como ontem o fiz com outra e
como farei amanhã com mais uma, então
ela sussurra que me quer e 
sorri quando me beija e mesmo
que eu diga tudo de volta eu
no fundo não sei se quero ou
se sou ou se sinto alguma coisa além 
do mais profundo sei-lá

14 de mar. de 2015

rebobine antes de devolver

Music is everything
Fonte: We ♥ It




Ela conseguia fazer anéis de fumaça com a boca. Ri, beijei seu ombro e, pela primeira vez na vida, não me incomodei com o cheiro do cigarro.
"Parabéns", falei, rouca pela risada.
"Quer?", ela ofereceu, prendendo o tubo com dois dedos. "Você não sabe as maravilhas que a nicotina faz depois da foda."
"Estou fumando passivamente", contrapus.
"Que ironia."
Dessa vez, rimos juntas, quase uma crise, até que lágrimas saíssem dos meus olhos. Quando nos acalmamos, ela sugou com vontade a base do cigarro, queimando-o quase todo. Por algum motivo, ela gostava dos mais baratos.
Eu estava a ponto de dormir pela exaustão. Meu rosto estava encaixado em seu pescoço nu, absorvendo-se e banhando-se em seu cheiro de pele. 
Nossas coxas enlaçadas, minha mão repousando na base de seu seio.
"Eu me sinto nova", disse ela, de repente. 
Ri. 

"Como assim?" 
Ela sorriu, mas me pareceu que fora apenas para me acompanhar. 
"Tá, nova não. Exagerei", ela abriu a boca, deixando a fumaça exalar de seu pulmão livremente dessa vez, de acordo com sua respiração. "Me sinto como uma antiga fita cassete se sente depois de rebobinar. Sabe?" 
Puxei seu queixo e beijei-lhe delicadamente. 
"Minha linda, eu nasci na geração dos pen-drives. Nem CD compro mais. Não tenho a mínima ideia do que você tá falando." 
Ela riu, com vontade dessa vez. 
"Tu é muito convencida pra uma menina tão nova." 
"Sou um prodígio, veterana aos 17 anos." 
"Um prodígio por pular metade do terceiro ano?" 
"Mas é claro." 
"Convencida, isso sim", ela me beijou. "As fitas cassetes não tocavam outra vez se você não girasse as fitas ao contrário. É o que chamávamos de rebobinar." 
"Então", comecei, ainda risonha "quer dizer que o sexo foi tão bom que literalmente te virou ao contrário?" 
"Basicamente isso", rimos novamente. "Na verdade, eu me sinto reanimada. Pronta pra reagir. Com vinte anos na cara, deixei uma guria de dezessete me ensinar a reagir." 
"Viu só como sou um prodígio?" Ela riu e concordou. "O que acontece se eu me apaixonar por você?", perguntei. "Se eu te rebobinei, isso significa que você tenha superado teu ex, imagino." 
"Muitas informações difíceis pra uma só sentença, Rafa. Vai com calma", ela sorriu. "Mas não quero que se apaixone. Se eu tô nova, dá pra ver que pra ti, sou só uma parte da tua música. Você rebobinou a minha fita, mas eu só acelerei a sua." 
Foi a primeira vez que ela me pareceu distante naquela noite, nessa frase. Na época, não entendi a metáfora muito bem, ou não o quis fazer. 
Tão difícil ver o fim. 
Naquela noite, matei minha aula e ela, a dela. Não cobrimos nossos corpos com nada além de nós mesmas e a fumaça do cigarro. Dormimos sob duas melodias diferentes tocando - mas, no dia seguinte, ela não estava lá. Minha música tocava; a dela, estava guardada em alguma gaveta. 
Percebi: eu a havia rebobinado antes de devolvê-la ao mundo.

24 de fev. de 2015

o lago-você



eu vejo o lago.

antes mesmo de mergulhar ele me banha, a imensidão e a água fumê, a incerteza do quão fundo é o fundo da vida.

eu vejo o lago.

não tenho trajes de banho, guelras, escamas e nem coletes salva-vidas. estes pulmões que me movem estão cansados de processar o ar gelado do inverno, esses pés que caminham estão duros de frio e paralisados pelo medo.

eu vejo o lago.

vejo-o uma última vez antes de pular. sinto-o envolvendo meu corpo, de pés pernas joelhos coxas barriga peito pescoço cabeça, engolindo-me inteira, soterrando-me em fluído. viva, vivo, meus pés não encontram o chão, abro-me e ergo-me. quero que me tome, esse lago, que me seja, que me transforme, que me viva.

eu mergulho no lago.

eu não sei nadar.


15 de jan. de 2015

para a pessoa que eu costumava ser

Oi, moça. Sente orgulho de mim? Direta, assim mesmo, do jeito que você não gosta. Olha pra mim agora, tu bem sabe o que passamos. Olha bem nesses meus olhos, teus olhos, refletidos nesse espelho. Encara o cabelo que tu deixou crescer, encara as olheiras de choro, encara tuas marcas adolescentes que estão indo embora conforme eu cresço e o mundo bate na minha, na nossa cara. Encara minhas mãos, menina. Sente desprezo por elas? Por quem bateram, pelas lágrimas que limparam, pelos corpos que acariciaram? Repudia nossa boca, menina, pelos lábios que beijamos, pelas vidas que deixamos de tirar?

Sente orgulho de mim?

Passei tanto tempo querendo te esquecer. Tentando superar você. Mas você me segue, cara, pesando meu coração, pedindo por aventuras e por emoções como uma maldita criança mimada. Você, sua fraca, carente de merda, nunca me deixou; mesmo quando te implorei para ir embora. “Vai, por favor”, eu suplicava. “Não exija tanto de mim.”

Sente orgulho de mim, criança? Sente orgulho dos sentimentos que você me ensinou a esconder? Das verdades que me instigou a encobrir? Dos rancores que me obrigou a guardar?

Você costumava escrever que queria viver. Implorava isso a mim. Implorava isso ao mundo. Quer saber de uma coisa?, estou vivendo agora. E ao mesmo tempo, não estou. Você sabe o que isso significa?

Olha pra mim. Olha pra nós, que a gente não vive; o tempo só passa e temos que aprender a lidar com esse tique-taque impiedoso. Você, menina, foi pura de coração – e hoje não somos mais. Corrompidas, machucadas, bagunçadas e confusas. Você, pelo menos, exibia-se ou encontrava uma maneira de te liberar.

Eu não tenho mais nada, moça. 

Sente orgulho de mim?

Se não, me deixa. Por favor, me deixa. Já é difícil o suficiente seguir sem o peso dos seus sonhos inconsequentes. Já é difícil o suficiente não voltar atrás quando não te tenho sob minhas costas.

Sente orgulho de mim? 

Tua opinião importa. Então, dê-a e vá. Me livre de ti.

Me livre de mim mesma.

13 de dez. de 2014

chuveiro

Fonte: BRWAX || We ♥ It



























A mulher prende a respiração, mergulha, aguardando miraculosidade da água quente que cai sobre sua cabeça. E ela vem; há certo místico no "solvente universal", como se todas as grandes emoções e demonstrações de afeto o contivessem.
A mulher, entretanto, carece de todas. Não sente nada. Está sozinha.
Fecha os olhos, gira a roldana, imagina-se num cenário novo, cheio de raiva dor beleza feiura felicidade bondade angústia calmaria maldade amor ódio tristeza e sorrisos. E em cima disso, chuva. Caindo. Levando.
Seu cenário é imperfeito, escuro e denso, onde não enxerga nada e sente tudo. Onde há harmonia entre si mesma e os elementos que a cercam.
A mulher mantem os olhos fechados por vários minutos. Tem medo de sair de seu delírio e encontrar-se.
Vazia.