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13 de dez. de 2014

chuveiro

Fonte: BRWAX || We ♥ It



























A mulher prende a respiração, mergulha, aguardando miraculosidade da água quente que cai sobre sua cabeça. E ela vem; há certo místico no "solvente universal", como se todas as grandes emoções e demonstrações de afeto o contivessem.
A mulher, entretanto, carece de todas. Não sente nada. Está sozinha.
Fecha os olhos, gira a roldana, imagina-se num cenário novo, cheio de raiva dor beleza feiura felicidade bondade angústia calmaria maldade amor ódio tristeza e sorrisos. E em cima disso, chuva. Caindo. Levando.
Seu cenário é imperfeito, escuro e denso, onde não enxerga nada e sente tudo. Onde há harmonia entre si mesma e os elementos que a cercam.
A mulher mantem os olhos fechados por vários minutos. Tem medo de sair de seu delírio e encontrar-se.
Vazia.

10 de out. de 2014

misoginia nossa de cada dia


"Vem aqui, sua linda", ele disse, de olhos grudados em mim, folheto azul nas mãos. Veio pânico, insegurança, fraqueza, olhei pra frente e lá estava. Muito perto, muito perto, não queria que ele me tocasse. "Por que escondeu o celular?", ele riu, debochado, ridicularizando, inferiorizando, mas sem retirar os olhos do meu corpo bem coberto. Olhei pros lados, pensei em correr, tanta gente, tanta gente, o sorriso dele me invadia, não queria que ele tocasse, não não não. "Ahhhh, você é tão linda! Vamos votar 45, hein?!", ele repetiu, estendendo o folheto, eu queria que ele parasse de me olhar. Baixei os olhos, sim, baixei a cabeça, apertei o passo, segui em frente, meu coração martelando contra mim, meu medo, minha humilhação. "Ô, sua linda! Vem cá!", ouvi seus passos, engoli em seco, olhei ao redor, pensei em correr, tanta gente, tantos homens, tantos homens passando por mim, tão normal, tão normal. Ele me entregou o folheto azul. "Gostei tanto de você!", ele disse, ainda me seguindo. "Você é muito linda, menina! Nossa!", ele era grosso, ríspido, debochado, doloroso. Cortes opressivos disfarçados de cantadas inocentes. Na minha lembrança, ele não tem rosto, ele são todos eles. Ele, que me seguiu e cantou e invadiu sem que eu o deixasse. 

Ele não foi o único homem que se aproximou de mim naquela tarde.

25 de jun. de 2014

ser

Para descontrair.
(Por que eu iria querer ser sua amiga de qualquer jeito? Sua vadia lésbica de cabelo cacheado.)



Eu sempre tive cabelo cacheado. E sempre senti atração por meninas.
Quando criança, eu não sabia. Eu brincava com meus primos, de cabelo liso escorrido, mas para mim eles não passavam de outros seres humanos da minha idade. E, para ser bem honesta, eu achava o amor uma coisa muito bonita, porque estava concebido no fundo da minha cabeça que era por causa dele que as melhores histórias eram contadas. Vide as novelas da minha mãe e os contos de fada.
Não demorou muito, entretanto, para eu notar que era errado. Meus primos tinham namoradinhas e, eu, como menina, deveria ter namoradinhos. Afugentava qualquer pensamento que me vinha ao ver uma mulher bonita na tevê; ué, eu era menina. Meninas ficam com meninos. Simples assim.
E eu ainda tinha esse cabelo. Que, percebi, não era certo também. As meninas bonitinhas tinham cabelos lisos. Isso ficava bastante claro quando meu tio, adolescente babaca que era na época, me zoava até me fazer chorar. Quando, na escola, as meninas mais graciosas exibiam suas madeixas lisinhas. Quando eu comecei a notar um padrão que abrangia o conjunto das pessoas atraentes, e percebi que não me encaixava nele.
Então, eu fiz de tudo para esconder minhas coisas erradas.
Prendi o cabelo em um rabo de cavalo modesto durante toda a minha infância. 
Nunca falei com minha paixão platônica da terceira série. 
Usei chapinha, selagem, química capilar de todas as formas.
Beijei vários meninos. Não por sentir qualquer coisa, mas só para provar que eu atraía o sexo oposto. 
Tentei de tudo; e nada adiantava. No fim, as coisas voltavam. Meu cabelo, por exemplo, era só chover, era só molhar, e ele voltava. Ele estava lá; uma lembrança consistente de que eu não me encaixava, de que eu não estava certa em ter nascido daquele jeito.
Eu queria que ele fosse embora e desse lugar ao cabelo liso da minha família paterna.
Eu queria que inventassem um produto milagroso que mudasse tudo.
E, então, pouco mais de um ano atrás, descobri que não queria mais. Porque, ora, eu sempre tive cabelo cacheado. Sempre terei. E, além disso, havia um monte de meninas na internet que também sempre tiveram cabelos cacheados e que eram muito felizes com isso. Por que não eu? Por que a obsessão em me mudar só pra seguir um padrão? Só pra ser igual?
Descobri também que não queria mais mentir, nem pra mim, nem pra ninguém. Porque, depois de todo o medo de que o mundo caísse sobre as minhas costas por ser errada, percebi que a atração que eu sentia era tão certa. Que fazia tanto sentido que eu ficasse com meninas, porque era sincero, era normal para mim. Muito mais do que já foi com qualquer garoto. 
A aceitação caiu em mim limpa como uma onda e, nossa, levou muita sujeira da minha vida. Todos os traumas, as neuras, as preocupações estéticas descabidas. Levou embora a criancinha de baixa auto-estima que não conseguia olhar nos olhos de ninguém. Lavou minha alma, trouxe um sorriso mais pleno pro meu rosto. Levou embora os produtos químicos e a prancha de cerâmica. Levou embora a possibilidade de maus relacionamentos. Me limpou tão bem a ponto de me fazer amar o que antes eu detestava e ignorava em mim.
Ter aceitado meus cachinhos foi tão libertador quanto ter aceitado minha lesbianidade. São duas coisas que não mudam a minha essência; e sim, fazem parte dela. Sou tão cacheada quanto sou gay. E sendo assim, sou feliz.

7 de mar. de 2014

feliz 8 de março, mulher!

fonte: tumblr / dr. luiz alfredo



feliz 8 de março, mulher! é o seu dia! desejo-te toda a felicidade, mulher, a menos que você seja gorda. ora, mulher, cuide da sua saúde, queime essa gordura!, lipoaspiração!, dietas!, bulimia!, shakes!, vai pra academia!, mulher! feliz 8 de março!, mulher magra! mas não magra demais, tábua de passar, cadê a sua bunda, seus peitos, nem parece que é brasileira!, coloca um silicone, mulher!, vai malhar, ganhar massa! e feliz 8 de março! é o seu dia! comemore muito, mulher, a não ser que você use shorts curtos, se valorize!, onde já se viu andar na sua com uma roupa dessas, mulher?! depois reclama quando é estuprada, não é, mulher?! 
feliz 8 de março! você merece!, a menos, é claro, que você seja uma transexual, porque então você não é mulher. mas feliz 8 de março! tão injusto não ter um dia do homem, não é, mulher, você tem de concordar; e daí se essa data é em tributo à incineração de trabalhadoras que viviam em regime quase escravista?, tantos homens brancos morreram nesse mundo, mulher! mas, mesmo assim, feliz 8 de março!, a não ser que você não aceite meu cavalheirismo, ou queira pagar a conta, ou não saiba cozinhar! mulher bem prendada tem que saber cozinhar, limpar e cuidar dos filhos! feliz dia 8 de março, mulher!, desejo-te do fundo do meu coração, da mesma maneira em que desejei te comer a noite inteirinha, ontem, quando você voltava para casa depois do trabalho! feliz 8 de março, mulher!, a menos que você seja negra! e se for negra, tem que ser gostosa, mulher! feliz 8 de março!, só não fale de sexo, futebol, palavrões, luta livre, carros, e outras coisas de homem, porque isso te faz menos mulher, mulher! 
feliz 8 de março!, mulher!, é seu dia! aproveite-o imensamente!, a menos que você procure os mesmos direitos dos homens, porque isso... isso não é coisa de mulher.