25 de jun. de 2014

ser

Para descontrair.
(Por que eu iria querer ser sua amiga de qualquer jeito? Sua vadia lésbica de cabelo cacheado.)



Eu sempre tive cabelo cacheado. E sempre senti atração por meninas.
Quando criança, eu não sabia. Eu brincava com meus primos, de cabelo liso escorrido, mas para mim eles não passavam de outros seres humanos da minha idade. E, para ser bem honesta, eu achava o amor uma coisa muito bonita, porque estava concebido no fundo da minha cabeça que era por causa dele que as melhores histórias eram contadas. Vide as novelas da minha mãe e os contos de fada.
Não demorou muito, entretanto, para eu notar que era errado. Meus primos tinham namoradinhas e, eu, como menina, deveria ter namoradinhos. Afugentava qualquer pensamento que me vinha ao ver uma mulher bonita na tevê; ué, eu era menina. Meninas ficam com meninos. Simples assim.
E eu ainda tinha esse cabelo. Que, percebi, não era certo também. As meninas bonitinhas tinham cabelos lisos. Isso ficava bastante claro quando meu tio, adolescente babaca que era na época, me zoava até me fazer chorar. Quando, na escola, as meninas mais graciosas exibiam suas madeixas lisinhas. Quando eu comecei a notar um padrão que abrangia o conjunto das pessoas atraentes, e percebi que não me encaixava nele.
Então, eu fiz de tudo para esconder minhas coisas erradas.
Prendi o cabelo em um rabo de cavalo modesto durante toda a minha infância. 
Nunca falei com minha paixão platônica da terceira série. 
Usei chapinha, selagem, química capilar de todas as formas.
Beijei vários meninos. Não por sentir qualquer coisa, mas só para provar que eu atraía o sexo oposto. 
Tentei de tudo; e nada adiantava. No fim, as coisas voltavam. Meu cabelo, por exemplo, era só chover, era só molhar, e ele voltava. Ele estava lá; uma lembrança consistente de que eu não me encaixava, de que eu não estava certa em ter nascido daquele jeito.
Eu queria que ele fosse embora e desse lugar ao cabelo liso da minha família paterna.
Eu queria que inventassem um produto milagroso que mudasse tudo.
E, então, pouco mais de um ano atrás, descobri que não queria mais. Porque, ora, eu sempre tive cabelo cacheado. Sempre terei. E, além disso, havia um monte de meninas na internet que também sempre tiveram cabelos cacheados e que eram muito felizes com isso. Por que não eu? Por que a obsessão em me mudar só pra seguir um padrão? Só pra ser igual?
Descobri também que não queria mais mentir, nem pra mim, nem pra ninguém. Porque, depois de todo o medo de que o mundo caísse sobre as minhas costas por ser errada, percebi que a atração que eu sentia era tão certa. Que fazia tanto sentido que eu ficasse com meninas, porque era sincero, era normal para mim. Muito mais do que já foi com qualquer garoto. 
A aceitação caiu em mim limpa como uma onda e, nossa, levou muita sujeira da minha vida. Todos os traumas, as neuras, as preocupações estéticas descabidas. Levou embora a criancinha de baixa auto-estima que não conseguia olhar nos olhos de ninguém. Lavou minha alma, trouxe um sorriso mais pleno pro meu rosto. Levou embora os produtos químicos e a prancha de cerâmica. Levou embora a possibilidade de maus relacionamentos. Me limpou tão bem a ponto de me fazer amar o que antes eu detestava e ignorava em mim.
Ter aceitado meus cachinhos foi tão libertador quanto ter aceitado minha lesbianidade. São duas coisas que não mudam a minha essência; e sim, fazem parte dela. Sou tão cacheada quanto sou gay. E sendo assim, sou feliz.